Diretor da Petrobras diz que cancelamento de refinarias não se deve à Lava Jato

A decisão da Petrobras de cancelar a construção de duas refinarias no Nordeste foi motivada apenas por fatores econômicos e não teve relação com os efeitos da Operação Lava Jato, que investiga corrupção na companhia.

A afirmação foi feita nesta quarta-feira (8) pelo diretor de Abastecimento da estatal, Jorge Celestino Ramos. Ele participou de uma audiência pública realizada pela comissão externa da Câmara dos Deputados que analisa a suspensão dos projetos.

De acordo com Ramos, o cancelamento, anunciado em janeiro passado, foi motivado por três fatores: primeiro, pela queda dos preços do mercado mundial de refinados, que reduziu as “margens de lucro” e tirou a atratividade dos empreendimentos. Depois, pela desistência da companhia petroquímica chinesa Sinopec, que estava negociando participação nas unidades. Por fim, pela necessidade da Petrobras de preservar seu caixa.

Segundo Jorge Ramos, o ambiente macroeconômico mundial mudou desde 2006, quando a companhia decidiu apostar na construção das duas unidades de refino. Ele garantiu que a Petrobras fez todo o esforço para manter os investimentos.

“Infelizmente nesse momento a gente não consegue caminhar com esse projeto pelo lado das condições de mercado que não está gerando indicadores positivos para que a gente continue com as inversões, com os investimentos; por outro lado também pela necessidade de preservação de caixa nesse momento.”

De acordo com o diretor da companhia, somente a retomada do crescimento mundial e a melhora nos preços do petróleo e dos refinados poderão levar à retomada dos projetos de construção de novas refinarias no País.
As duas usinas seriam construídas nas cidades de Bacabeira, no Maranhão, e em Caucaia, no Ceará. Elas produziriam óleo diesel, gás de cozinha e querosene de aviação.

Questionado pelos deputados, o diretor da estatal disse que os estados não foram avisados com antecedência do cancelamento porque a legislação das sociedades anônimas exige que o mercado seja informado em primeiro lugar. Mas ele reconheceu o mal-estar que isso gerou nos governos. “A gente entende que essa não foi a melhor forma de discutir o assunto.”

A decisão da estatal de não informar previamente os governadores foi bastante criticada pelos membros da comissão externa. O deputado Pedro Fernandes (PTB-MA) disse que não houve respeito aos estados e duvidou que a não comunicação foi motivada pela exigência de se informar primeiro ao mercado.

“Isso é história para boi dormir. Ou o projeto foi mal pensado, aí a Petrobras se corrige cancelando, vamos ser maduros, ou foi de uma irresponsabilidade muito grande. Simplesmente no final do ano, discutindo com os seus parceiros, por uma conjuntura internacional vivida nesse momento, eu cancelo os projetos e venho dizer que se não tivesse isso eu teria problema, isso não existe.”

Na próxima semana a comissão externa vai realizar uma nova audiência pública, desta vez para ouvir o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga. Também na próxima semana o colegiado deverá visitar a cidade de Bacabeira, onde seria instalada a unidade maranhense.

Fonte: Câmara dos Deputados

QGI paralisa obras de plataformas e ameaça planos da Petrobras

O consórcio QGI Brasil, formado pela Queiroz Galvão e Iesa Óleo e Gás e dono do estaleiro Honório Bicalho, em Rio Grande (RS), suspendeu as obras de construção e integração dos módulos das plataformas P-75 e P-77. A decisão foi comunicada à Petrobras no dia 6 deste mês. Na semana passada, o consórcio enviou cartas aos seus fornecedores informando sobre a suspensão dos contratos para fornecimento de produtos e serviços relacionados às duas plataformas. O Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor, apurou que os subfornecedores do projeto também tiveram seus contratos suspensos.

O rompimento do contrato reforça as incertezas sobre o cumprimento da curva de produção da estatal, que prevê atingir em 2018 uma produção de 3,2 milhões de barris diários de petróleo. Se optar por relicitar os serviços, a petroleira terá um prazo curto para recontratar a integração da P-75, prevista para entrar em operação já no ano que vem.

O Plano de Negócios 2014-2018 da Petrobras, que deve ser revisto para baixo este ano, prevê a entrada em operação da P-75 em 2016 e o início das atividades da P-77 em 2017. As duas unidades foram contratadas para produzir no campo de Búzios, na área da cessão onerosa, e têm capacidade para produzir, juntas, 300 mil barris/dia.

Segundo o Enseada Indústria Naval, contratado pela Petrobras para a conversão dos cascos das plataformas no estaleiro Inhaúma, as obras da P-75 fecharam 2014 com avanço físico de 84%. Já a conversão da P-77, transferida para a Cosco, na China, encerrou o ano com 78% das obras concluídas.

O consórcio não quis se pronunciar a respeito, mas a medida é uma tentativa do de forçar uma negociação depois que a Petrobras suspendeu a inclusão de aditivos nos contratos em função dos esquemas de corrupção flagrados pela Operação Lava-Jato. O contrato foi assinado em setembro de 2013.

As duas unidades custariam US$ 1,6 bilhão, incluindo os módulos construídos em Rio Grande e as conversões dos cascos de navios em plataformas. Até agora, porém, nenhuma plataforma foi construída pelo QGI, embora os primeiros materiais já tenham chegado ao estaleiro gaúcho. A expectativa da própria Petrobras é que as obras empregariam, no pico, 4,4 mil trabalhadores, mas até agora o consórcio contratou apenas 300 pessoas.

O Valor teve acesso à carta enviada pelo consórcio, na quinta-feira da semana passada, a um dos fornecedores pedindo a suspensão dos trabalhos decorrentes desse contrato até que o consórcio tenha novas informações sobre o caso. A QGI diz ainda ao fornecedor que já notificou a Petrobras sobre a decisão de rompimento, devido à violação do contrato.

O consórcio pede que o fornecedor a informe sobre tudo o que já foi produzido e pago pela contratante, até aquela data, para que possa dar continuidade às negociações com a petroleira, de forma a fazer a liquidação gradual do contrato.

Subfornecedores que fazem parte da cadeia da construção das plataformas também já foram notificados para interromperem as atividades e enviarem dados atualizados de produção e pagamentos para as contratantes.

O fim do contrato afeta desde multinacionais até empresas de médio porte. Segundo uma fonte do setor, diversos fabricantes de máquinas e equipamentos vêm relatando nos últimos dias aumento de casos com problemas nos contratos de obras de plataformas e navios sonda.

Além de problemas com a integração das plataformas da cessão onerosa, a Petrobras convive com incertezas envolvendo a execução das obras de construção dos FPSOs replicantes do pré-sal. O contrato com a Iesa para construção dos módulos de compressão de gás das plataformas, por exemplo, foi rescindido no ano passado e ainda está sendo relicitado pela Petrobras.

Já as obras de construção dos cascos e de integração das oito unidades estão sob responsabilidade de empresas que se encontram nos holofotes da Operação Lava-Jato, como Engevix, UTC, OAS e Mendes Jr.

Fonte: Valor Econômico/Sérgio Ruck Bueno, Victória Mantoan e André Ramalho | De Porto Alegre, São Paulo e do Rio